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2º Seminário de Altas Habilidades e Superdotação reúne 350 participantes em Caxias do Sul

Foto do escritor: Benito Rizzi
Benito Rizzi
17 de ago.
6 min de leitura

Organizado pela Frente Parlamentar presidida pela vereadora Marisol Santos e pelo ISA, evento reuniu representantes de mais de 24 municípios da Serra Gaúcha e de outras regiões para um dia de formação, troca de experiências e debate sobre políticas públicas para AHSD


O 2º Seminário de Altas Habilidades e Superdotação da Serra Gaúcha lotou o Teatro Municipal Pedro Parenti, na Casa da Cultura de Caxias do Sul, no sábado (08/08). Com as 350 vagas preenchidas e representantes de mais de 24 municípios, o encontro reuniu famílias, educadores, profissionais da saúde, pesquisadores, gestores públicos e pessoas com Altas Habilidades e Superdotação, consolidando Caxias do Sul como um dos polos de mobilização sobre o tema na região.


O seminário foi organizado pela Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos das Pessoas com Altas Habilidades e Superdotação, presidida pela vereadora Marisol Santos (PSDB), e pelo Instituto de Superdotação e Altas Habilidades da Serra Gaúcha, o ISA, com o apoio da Secretaria Municipal da Educação, 4ª Coordenadoria Regional de Educação, Faders e CEMAPE. O evento também marcou a abertura da 5ª Semana Municipal de Altas Habilidades e Superdotação de Caxias do Sul.


“Chegar à segunda edição com 350 pessoas e mais de 24 municípios representados mostra o tamanho dessa rede que conseguimos construir. Quando começamos a falar de altas habilidades, eram famílias pedindo para serem vistas e ouvidas. Hoje temos famílias, escolas, especialistas, universidades e poder público sentados juntos, compartilhando conhecimento e buscando respostas. É isso que queremos, transformar informação em acolhimento e em políticas públicas”, destacou Marisol.


A programação começou com o médico Guilherme Socoowski, que abordou Altas Habilidades e Superdotação, Autismo e Dupla Excepcionalidade. A palestra diferenciou neurodiversidade, neurodivergência e transtornos do neurodesenvolvimento, discutiu diferentes concepções de inteligência e reforçou que AHSD não é uma patologia. Socoowski aprofundou a dupla excepcionalidade, quando capacidades elevadas coexistem com dificuldades importantes, como TEA, TDAH ou transtornos de aprendizagem, e chamou atenção para o mascaramento, que pode fazer tanto as potencialidades quanto as limitações passarem despercebidas. Entre os tópicos centrais estiveram ainda desenvolvimento assíncrono, saúde mental, pressão por desempenho e o peso do rótulo de “gênio”. A mensagem que sintetizou a palestra foi: “Não pergunte quão inteligente ele é. Pergunte o que essa mente precisa para navegar o mundo”.


Na sequência, Lúcia Lamb, da Faders, apresentou “Do PEI à aceleração de estudos: caminhos para ampliar o potencial de estudantes com altas habilidades”. A palestra percorreu o caminho entre identificação, Atendimento Educacional Especializado, enriquecimento curricular, PEI, planejamento individual e aceleração de estudos, defendendo que o objetivo final não deve ser simplesmente oferecer mais conteúdo, mas desenvolver autonomia intelectual, acadêmica e socioemocional. Lamb explicou que o AEE não é reforço escolar, atividade recreativa ou substituição da sala de aula regular, mas um espaço para construir funções executivas, ampliar repertórios e ajudar o estudante a elaborar seu projeto de vida. Também abordou os benefícios da aceleração quando planejada a partir das necessidades individuais do aluno.


Uma das imagens utilizadas por Lúcia comparou o AEE a um “aeroporto internacional”, um espaço em que o estudante aprende a escolher destinos, enfrentar turbulências e mudar de rota. A palestrante resumiu a proposta em uma das frases mais marcantes do encontro: “O maior recurso de enriquecimento que um professor pode oferecer não é um laboratório sofisticado, um robô ou um computador. É ensinar o estudante a liderar a própria mente”. Para ela, o legado do AEE deve ser formar pessoas livres, éticas, competentes e resilientes, capazes de transformar conhecimento em benefício da sociedade.


A experiência que já está sendo construída pela rede municipal de Caxias do Sul foi apresentada por Camila Bristot Terres, na palestra “CEMAPE e o trabalho com Altas Habilidades e Superdotação”. O Centro Municipal de Atendimento Pedagógico e Especializado trabalha com enriquecimento curricular por meio de experiências desafiadoras, projetos interdisciplinares e práticas fundamentadas na Cultura Maker. O atendimento ocorre no contraturno escolar, em pequenos grupos, com oficinas temáticas, projetos e visitas técnicas a diferentes espaços de aprendizagem. A apresentação também abriu espaço para os próprios estudantes, tratados como protagonistas do processo.


A programação da tarde ampliou o olhar sobre AHSD para além da infância. Patrícia Neumann conduziu a palestra “Os desafios da vida adulta na perspectiva do superdotado”, abordando questões que muitas vezes permanecem invisíveis depois da vida escolar. Entre os tópicos centrais estiveram a construção da identidade, a tendência de esconder ou minimizar capacidades para se encaixar, a intensidade emocional, a necessidade de encontrar significado nas atividades, os desafios na vida profissional e a sensação de não pertencimento nas relações sociais. A apresentação também tratou dos fatores de proteção na vida adulta, destacando autoconhecimento, autorregulação, tolerância ao erro, vínculos afetivos seguros, convivência com pares, ambientes desafiadores, propósito e coerência com os próprios valores. A programação também contou com uma roda de conversa com os adultos superdotados Carla Hart, Priscila Favaro e Pablo Fagundes, que compartilharam as suas vivências e desafios.



O professor e engenheiro aeronáutico Daniel Lavouras apresentou “Olimpíadas do Conhecimento: como elas podem transformar o futuro das crianças e jovens”. A palestra mostrou as olimpíadas como instrumentos educacionais baseados em problemas e desafios, capazes de despertar fascínio pelo conhecimento e criar uma cultura de excelência sem limitar a experiência à competição. Lavouras destacou impactos como difusão da ciência, identificação de talentos, recuperação da autoestima, formação de futuros pesquisadores e qualificação da própria sala de aula, já que professores também são mobilizados por estudantes mais desafiados e interessados.


Ao falar em Pedagogia Olímpica, Lavouras apresentou uma sequência baseada em fascínio, autonomia e cultura. O objetivo é fazer com que o estudante deixe de ser apenas receptor de conteúdo, desenvolva metacognição, encontre respostas criativas para problemas e leve novos conhecimentos de volta à própria comunidade. Entre as mensagens da apresentação estavam “o sonho é possível” e a ideia de que os estudantes devem chegar ao ponto de “alçar voos solo”, indo além da dependência dos próprios professores.


A psicóloga e neuropsicóloga Lenira Sgorla Pavan trouxe a palestra “Altas Habilidades além do QI: desmistificando o laudo neuropsicológico”. O conteúdo questionou a ideia de que uma avaliação de AHSD possa ser reduzida a um único número. Lenira apresentou a avaliação neuropsicológica como uma análise integrada de atenção, memória, linguagem, funções executivas, velocidade de processamento, habilidades visuoespaciais, aspectos emocionais, cognição social e funcionamento cotidiano. A partir de um caso prático, demonstrou como uma criança pode apresentar desempenho extremamente elevado em algumas áreas e resultados apenas médios em outras, produzindo assincronias que, no cotidiano escolar, podem ser confundidas com preguiça, desatenção, desorganização ou falta de interesse.


A palestra reforçou que compreender essas diferenças internas é tão importante quanto conhecer o QI total. Em um dos exemplos analisados, o alto potencial em compreensão verbal e raciocínio perceptual coexistia com desempenho proporcionalmente inferior em memória operacional e velocidade de processamento. A conclusão foi sintetizada em uma frase projetada durante a apresentação: “Um teste mede inteligência. O laudo revela funcionamento”. Outra mensagem reforçou o mesmo princípio: “Compreender é mais do que medir, é ouvir o que o dado não diz”.


O seminário encerrou a programação técnica aproximando esses conhecimentos da realidade cotidiana de quem convive com AHSD. A roda “Escola, família e rede de apoio: o contexto social das altas habilidades”, mediada por Marisol Santos, reuniu diferentes perspectivas para discutir a importância de uma rede articulada em torno da pessoa superdotada. A proposta foi colocar no mesmo espaço a experiência da família, da escola, dos profissionais e das próprias pessoas com altas habilidades, reforçando que identificação e desenvolvimento não dependem de um único ator, mas de diálogo e corresponsabilidade. Participaram do momento de trocas Viridyana, Pedro e Nelson Cuba, Toni Olsen, Coordenador Pedagógico do Colégio Madre Imilda e Fabiana Fontana, pedagoga com especialização em neuropsicopedagogia.


Para Marisol, a diversidade dos conteúdos foi uma decisão central na organização da segunda edição. A programação buscou acompanhar diferentes fases e dimensões da vida da pessoa com AHSD, passando pela identificação, dupla excepcionalidade, atendimento educacional, aceleração, experiências concretas da rede pública, vida adulta, estímulo ao conhecimento, avaliação neuropsicológica e relação entre escola e família.


“Não queríamos um seminário que falasse apenas sobre como identificar uma criança superdotada. Queríamos discutir o que acontece depois da identificação, o que a escola precisa fazer, como a família pode ser acolhida, como desenvolver autonomia, como compreender as assincronias e o que acontece quando essa criança se torna adulta. As altas habilidades acompanham a pessoa durante toda a vida. Quanto mais conhecimento tivermos, menos pessoas serão invisibilizadas e mais condições teremos de transformar potencial em oportunidade”, concluiu Marisol.

 
 
 

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